terça-feira, 21 de agosto de 2012

Givenchy

Há dias deparei-me num blog com imagens da nova linha de acessórios da Givenchy e o autor do post rejubilava de entusiasmo qual fashion victim com os ditos acessórios. Não sou mestre, mas já sou “antigo” e incomoda-me quando “miúdos” deliram com coisas que não são de todo novidade. Ok eles não viveram nos 80’s nem nos 90’s, mas apreciadores de moda que são, podiam fazer o trabalho de casa e tentar perceber a origem das coisas, porque hoje em dia nada surge do nada. Vivo convicto que presentemente é quase impossível criar algo verdadeiramente novo, em tecnologia sim, sem duvida, será sempre a inovar, mas no que toca a música, moda, decoração e até o modo de vida das pessoas, o que assistimos é a um revivalismo, a um constante regresso ao passado, que é o que acontece sempre quando as ideias se esgotam ou quando não temos mais perspectivas de futuro.
No que diz respeito a estes acessório, eu diria que não são nada de novo, mas sim uma reinvenção e a própria Givenchy deve estar consciente disso, pois não foi ao acaso que elegeu a música dos Prodigy para o vídeo de apresentação da coleção. O vocalista da banda Keith Flint, em 1996, foi impulsionador do uso de piercings de nariz e afins, num movimento electro punk e não num conceito fashion como é óbvio.



3 comentários:

Z. disse...

Uma vez que este post me faz referencia nao podia deixar de vir cá dizer de minha justiça.

Em lado algum me viste dizer que estes acessórios eram inovadores e nunca vistos, tanto que até usei o adjectivo "tribais" para os caracterizar. Tribal vem de tribo, as tribos indígenas, essas sim, antes dos Prodigy, já usavam piercings. Não vou dizer que o director criativo da Givenchy não foi buscar inspiraçao aos Prodigy, não estou na cabeça dele, no entanto essa miscigenação de artes e influências é muito positiva. Acho que as coisas não devem ser estanques, devem sim crescer e desenvolver-se lado a lado.

Quanto ao meu entusiasmo, longe de fashion victim, cujo significado não te deve ser familiar. Um fashion victim é uma pessoa que usa tudo aquilo que os outros usam, numa espécie de uniformização. Não sai fora dos padrões. Todos usam ténis Merrell entao o fashion victim também os usa, por ex.

Eu gosto de moda e não me coíbo de usar aquilo que realmente gosto, quer seja de uso massificado ou não. Gosto de coisas diferentes e exclusivas embora saiba que a moda é algo que se tem vindo a democratizar, tornando as marcas de alta costura cada vez mais inacessíveis ao consumidor comum.

Sendo assim, acho que o meu trabalho de casa não é destruir aquilo que se constrói. Se estes acessórios foram feitos e integraram uma colecção, eu não vou deitar abaixo e dizer que não é original. Para mim é simplesmente a fusão de artes. A música influencia a moda, a antropologia influencia a moda, o cinema influencia a moda. Não é um ponto negativo, pelo contrário. Não entendo essa tua recusa à reinvenção ou miscigenação de áreas.

Quanto ao vocalista dos Prodigy ter impulsionado o uso de piercings... não digo que não. De qualquer modo, dizeres que não é um "conceito fashion" é errado. O corpo é um reflexo da cultura e a forma como o alteramos é em si um conceito estético. Ao fazê-lo, o Keith Flint estava a atribuir determinados símbolos/acessórios a uma subcultura, a dos punks ou electro punks... anyway... ao fazê-lo está a criar uma moda, que será seguida pelos seus admiradores. Mais uma vez repito, as artes não são isoladas e devemos aceitar o facto de se interligarem de uma forma tão saudável.

crónicas da vida disse...

Lamento que se tenha sentido ofendido com a expressão fashion victim, mas parece tendência recorrente, pessoas assumidamente consumidoras de moda fazerem questão de fugir a essa rotulagem como se algo negativo fosse. É verdade que por vezes quando uso a expressão vitima da moda o faça com uma conotação depreciativa, mas no fundo tenho é uma profunda admiração (porque não dizer inveja) por essas pessoas. Para mim aquele que usa tudo o que os outros usam como um uniforme, não é um fashion victim, é uma ovelha que segue um rebanho. Para mim, e volto a dizer para mim, é alguém que está em cima das tendências do momento sim, mas que procede a mudanças de estilo constantes consoante os ditos da moda, é alguém que transmite status pela forma como se veste e acima de tudo é alguém que tem poder de compra para adquirir roupas de grandes marcas, por norma inacessíveis à maioria. O cidadão comum se quer estar na moda vai comprar uma tshirt na Zara a um preço acessível e arrisca-se a ver 50 pessoas com uma tshirt igual, a fashion victim vai comprar na Gucci assegurando-se duma certa exclusividade e de uma clara ostentação.

Parece que transmiti a ideia de que me oponho à reinvenção e á mistura de estilos, o que não pode ser mais errado. Eu sou um fervoroso defensor da ideia que tudo que se faz hoje é inspirado no passado, que assistimos a uma onda revivalista não só na moda, mas em todas as áreas, e que a mesma se alastra á sociedade e ás economias dos países. Este blog tem sido e tenta ser o espelho disso, nas minhas constantes referencias aos anos 80 e 90, quase que saudosistas, nos constantes paralelismos que faço entre moda, musica, sociedade e intemporalidade.

Quando escrevi que o vocalista dos Prodigy impulsionou o uso de piercings num movimento electro punk e não num conceito fashion, fi-lo de plena consciência deduzindo que suscitasse duplas leituras. Sem dúvida que ao fazê-lo estava a criar uma moda que foi seguida pelos seus admiradores, mas pensemos nas coisas como elas eram há 20 anos atrás. Primeiro que tudo a cultura punk não era uma cultura de moda, não era nem pretendia ser pop. Segundo, o visual agressivo característico do punk, adotado também pelos seguidores (fã é quem segue um ídolo, seguidor é quem se define e se sente identificado com um estilo concreto de música, ideologia, whatever), não era feito com o intuito estético de provocar modas, era sim ir contra as modas, contra o convencional, o bonitinho e o politicamente correto. Naquela altura o uso de piercing era feito num contexto de afirmação de uma cultura e não com o intuito de lançar moda e ser copiado. Não esquecendo que foi nessa altura que começaram a surgir as culturas tribais: os grunge, os góticos, os betos, os yuppies, e por ai fora, criando-se subgrupos nas sociedades e respectiva rotulação.

Hoje sim assistimos a uma miscigenação de culturas e estilos, com os artistas a ditarem usos e costumes para logo legiões de fãs a seguirem lhes o exemplo... e nunca as tatuagens e os body piercings estiveram tão vulgarmente vulgarizados.

Z. disse...

Obrigado pelo esclarecimento. Não me sinto ofendido com o conceito fashion victim, apenas não me identifico. Eu tanto uso Gucci como uso Zara, embora o meu poder económico só me permita adquirir peças de alta costura de quando a quando.

Quanto aos punks é obvio que eles queriam ser contestatários e polémicos... ao fazê-lo através de piercings tatuagens o que quer que seja, manifestaram-no através da moda. É nessa perspectiva. Mas ok, percebido o teu ponto de vista. ;)